segunda-feira, agosto 18, 2014

[FIC] Un jour tu verras

“Un jour, tu verras
On se rencontrera
Quelque part n’importe où
Guidés par le hasard
Nous nous regarderons
Et nous nous sourirons
Et la main dans la main
Par les rues nous irons”
Edith Piaf

“Um dia, você vai ver,
A gente vai se encontrar
Em qualquer lugar, não importa onde
Guiados pelo destino
Nos olharemos,
E nos sorriremos,
De mãos dadas
Pelas ruas iremos...”


É engraçado pensar que, ao conhecer uma pessoa, talvez ela já faça parte da sua rotina de alguma forma e você nem saiba.
Por exemplo, pode ser que um e outro frequentem o mesmo mercadinho perto de casa. Um vem pelo lado direito, o outro pelo lado esquerdo, nunca se cruzando naquele caminho. Talvez um dia tenham estado na mesma farmácia, ao mesmo tempo: um em uma prateleira diferente, sem terem se visto. Um apenas alguns passos do outro na fila.
Muitas pessoas correm no parque. Muitas pessoas correm de manhã. Quando se entra cedo ao trabalho e é imprescindível que se esteja em boa forma física para o bom exercício de sua profissão, pode-se adquirir o hábito de sair de casa antes que a vida comece na cidade para tanto. Um parque normalmente tem várias vias de acesso, com algumas possibilidades de percurso. Muitas pessoas acabam pisando no mesmo solo, na mesma intensidade, no mesmo pensar, na mesma pegada, sem nunca compartilhar nada além daquele mesmo espaço.
Algumas pessoas, porém, parecem destinadas a se conhecer.
Há a primeira oportunidade: inscrevem-se, por exemplo, no mesmo congresso. Os dois serão palestrantes. Podem, por isso, encontrar-se por acaso no intervalo, talvez esperando a vez de se servir de café com a xícara na mão. Talvez se encontrem, talvez não.
Outra oportunidade: são escalados para o mesmo plantão, atender o mesmo caso, preocupados em analisar e conter a mesma situação. Os olhos podem se cruzar ou não: afinal de contas olham para o mesmo lugar, para a mesma pessoa que os ameaça, que segura o revólver contra o refém. Ambos com a mesma expectativa, com o mesmo coração batendo atento.
Mas, novamente, pode ser que não se encontrem.
O destino não é um senhor de barbas, que fica em sua cadeira confortável, à frente uma planilha Excel controlando horários. O destino é relapso. Não se preocupa se as pessoas deveriam ter se encontrado antes, se às vezes é tarde demais, se passaram 10 anos, 20 anos percorrendo a mesma trilha sem ao menos se esbarrar. Mas isso porque a vida não é justa, e apenas quando o destino se desvencilha das teias emaranhadas da vida é que pode enfim se realizar. O destino. Mas quem acredita nele? Quem acredita que haja efetivamente uma energia desconhecida no universo a movimentar todos os átomos, todos os corpos celestes, tudo. Quem acredita que há um destino que nos move à melhor possibilidade do que podemos ser?
Muitas pessoas não acreditam em destino porque não se conformam com o destino que tiveram. Mas o destino não sabe distinguir eventos bons de ruins. O destino apenas sabe que cada pessoa tem uma estória diferente. Cada uma que se vire para entender e conviver com a própria estória.
Muitas pessoas não acreditam em destino porque talvez ele seja um conceito para lá de abstrato. O que não se pode medir, o que não se pode dissecar, o que não se pode analisar numericamente prós e contras, entrevistar, colocar na balança, espetar, colocar no microscópio, tudo o que não se pode entender, não existe.
De fato, destino existe. Não estou dizendo que esteja determinado. Não estou dizendo que há alguém ou alguma entidade que o controla, que manipula acontecimentos e pessoas. Cada um que acredite no que quiser.
Mas não se pode negar que cada um tem um destino. O destino é o lugar para onde se vai ou para onde se foi. É o resultado de uma determinada época, de um tempo, de um momento. Todo mundo tem ou teve ou terá um destino.
E, como eu ia dizendo, parece que algumas pessoas estão destinadas a se conhecer. Porque têm os mesmos interesses, porque fazem parte de alguma mesma partição de algum fenômeno ou instituição.
Spencer Reid, por exemplo, anda para cima e para baixo do país. É provável que vez ou outra encontre pessoas de sua cidade espalhadas em outros locais. Porque ele viaja muito. É possível que um dia esteja num restaurante e ali mesmo esteja uma pessoa que foi amiga de um colega seu na escola. Porque ele se expõe muito.
Kaa, outra pessoa a ter muito contato com o mundo, com o público. Talvez já tenham falado com pessoas em comum, mesmo que brevemente. Sua profissão também exige entrada em delegacias, em presídios, em bibliotecas, ou seja, não é preciso ter muita fé em destino para se acreditar que talvez, um dia, eles se encontrem.
O engraçado é que o destino às vezes deixa de ser evasivo e toma atitudes agressivas.
Digamos que um e outro precisem um determinado documento. Não precisa nem ser o mesmo documento. Mas faz de conta que necessitem obter essa documentação em um certo guichê, o mesmo guichê. Dependem do atendimento da mesma funcionária. E a obtenção dos dados que necessitam é urgente: a vida de outras pessoas depende disso. Já é noite, o guichê já está fechado. No dia seguinte, estarão concorrendo o primeiro lugar na fila. Inevitável. Vão se encontrar. Certamente.
O destino realmente não é um senhor de barbas. Porque, se fosse, pegaria as pessoas pela mão e as guiaria pessoalmente. Não teria paciência de esperar a casualidade. Quando houvesse interesse, colocaria a mão de uma pessoa sobre a outra. Não lidaria com a timidez dos outros. Não ficaria na espera, no camarote assistindo tudo sem poder intervir, sem fazer o que é certo. O senhor de barbas talvez até falasse em voz alta: este aqui é o seu destino e esse aqui é o seu. É o mesmo destino. Sou eu quem determino.
Bom, no dia seguinte, um e outro vão se encontrar. Ai, que frio na barriga. Eles nem desconfiam. Nem imaginam. Como a vida pode mudar tanto quando a gente conhece alguém. Até ontem, a vida era assim. Agora vai ser de outro jeito.
Tem gente que até imagina que nunca mudaria a vida. As coisas já estão tão no seu lugar, tão na sua rotina, tão tranquilas e do jeito que deveriam estar... por que alterar, não é mesmo?
Ah, eles vão se encontrar amanhã. Vão perceber que um tem informações preciosas ao outro. Vão sentar juntos rapidamente, entretidos com o dever. Vão trocar telefone para conversarem melhor a respeito. E quando o caso acabar, a vontade de se falar novamente vai surgir. Como eu sei? Ah, algumas coisas são óbvias.
Talvez o destino seja um senhor de barbas. Talvez nem sejam brancas, talvez o destino seja apenas relapso. Talvez ele nos sopre nos ouvidos, “vá por aqui, boba”, “vá por ali, bobo”. Mas, por onde quer que a gente vá, encontraremos nosso destino afinal. Porque todo mundo tem uma estória. Uma estória única.
Talvez vocês me achem ingênua por pensar assim. Mas, independentemente do que eu acredite, o que é realidade, acontece. Não cai a chuva sem a gente saber quando e onde exatamente? Nem a chuva sabe quando vai chover.
Mas... quem sabe o destino saiba?

Fic postada no orkut dia 06/02/2010

FIC Uma manhã comum de um homem extraordinário

Spencer Reid acorda em seu modesto apartamento.
A janela entreaberta deixa passar um pouco da luz da manhã.
Observa as partículas suspensas enquanto espera seu despertador tocar para se levantar.
Como é bom acordar assim distraído, os olhos abertos, os pensamentos despertos.
Enfim, o despertador toca.
Já está tudo organizado para se iniciar a rotina: a roupa do dia estendida em cima da poltrona, os sapatos ao lado, a camisa no cabide.
Vai ao banheiro, se espreguiçando e bocejando.
Seu pijama branco de listras azuis mal se amassou, mas em compensação o seu cabelo... que bagunça!
Reid tira a sua roupa, toma um banho rápido. O sabonete, o mesmo de todos os dias. Sempre a mesma marca de shampoo. A toalha, apesar de trocada a cada dois dias, a mesma.
Ao sair do banho e se enxugar, coloca o roupão e troca de chinelos: deixa os de borracha em ao lado do lavatório e coloca os de pano.
Penteia os cabelos, escova os dentes.
A escova, trocada a cada mês, mas sempre a mesma.
A pasta de dente? A mesma.
Se alguém abrisse a porta da despensa, verificaria o estoque de produtos todos iguais e dispostos em paralelo.
Já no quarto, se troca.
Veste-se sempre na mesma ordem: primeiro as cuecas, que enfia por baixo do roupão, depois as meias, em seguida a camisa, a calça, o cinto, a gravata, o colete, e por fim os sapatos.
Confere no espelho se está todo alinhado.
Na cozinha, já está tudo preparado: o pó do café está na cafeteira, é só ligar o botão.
Também a torradeira já está em cima do balcão, é só adicionar o pão e apertar o botão.
A frigideira também está no fogão. Ovo e bacon, é só acender o fogo.
Enquanto o café da manhã se produz, Reid busca os jornais do dia. Cinco. E mais duas revistas.
Serve-se no mesmo prato de todos os dias.
Enquanto come, dedica-se à sua leitura.
Termina, dobra todos os papéis, embrulhando-os no cesto de recicláveis.
Lava a louça toda com quietude.
Dispõe tudo no lugar para o próximo dia.
No quarto, troca de lugar o chinelo de borracha pelo de pano. No dia seguinte, fará tudo a mesma coisa.
Uma última conferida no espelho.
Arma, documentos.
Relógio.
Está bem na hora.
A mesma hora de ontem, a mesma hora de amanhã.
Ao trancar a porta, Reid suspira.
Como será o seu dia? Impossível saber. Nenhum dia normal em toda a sua vida. Nenhuma possibilidade disso acontecer. Mas uma manhã normal, uma manhã como todas as outras.
Reid sai tranqüilo, sabendo que nada será tão extraordinário quanto a sua própria quietude.
Sua deliciosa solidão, repleta de pensamentos, reflexões e ponderações.
Tudo perfeito, como um ovo que estala na frigideira.
Como uma rotina.
Uma boa e reconfortante rotina.

Postada no Orkut no dia 19/09/2009

terça-feira, maio 17, 2011

Quanto mais purpurina, melhor!

Tema da semana: continuamos com respiração!

Eu, Márcio e Joana tivemos nesta semana nossa segunda oficina corpo e voz!

Aqui estão as atividades realizadas e sugeridas:

Iniciamos com uma 'saudação ao sol', conduzida por Joana!


Márcio

a) passo de samba - movimento ritmico nas pernas, outro nos braços, rodopiando.

b) andar - ponta do pé para frente, ponta do pé para cima, calcanhar para baixo.
c) andar - pisando na bola de pingue-pongue.

Joana

a) tada tede tidi todo tudu
b) brrrra crrrra drrrra frrrra grrrra jrrrra e assim por diante...
c) danoninho
d) VUUUUUU
e) beijo e riso

f) trava-línguas, como tagalerar (conjugação) e variação de trava-línguas clássicos.

Rosely

a) ombro - rotação para frente e para trás, alongamento do pescoço, rotação de braço, alongamento de costas e ombro, para frente e para trás.
b) respiração 'modulada' em um tempo, dois tempos, quatro tempos, oito tempos.

quinta-feira, maio 12, 2011

Realce

Tema da semana: respiração!

Eu, Márcio e Joana tivemos nesta semana nossa primeira oficina corpo e voz!

Aqui estão as atividades realizadas e sugeridas:

Márcio

a) passo de samba - movimento ritmico nas pernas, outro nos braços, rodopiando e falando ao mesmo tempo. Foi recitado um fragmento do poema de Florbela Espanca: "amar amar".
b) andar - ponta do pé para frente, ponta do pé para cima, calcanhar para baixo.
c) andar - pisando na bola de pingue-pongue.
d) sentar - apoio com uma das mãos para sentar e levantar, recitando o poema ao mesmo tempo.

Joana

a) BRRRRRR
b) TRRRRRR
c) danoninho
d) VUUUUUU
e) beijo e riso

Rosely

a) ombro - rotação para frente e para trás, alongamento do pescoço, rotação de braço, alongamento de costas e ombro.
b) respiração por 10 minutos.
c) caminhada por 15 minutos.

terça-feira, abril 19, 2011

Vamos bater lata

Aqui uma estória que contei para uma amiga minha sobre um episódio de 1996. Achei que valia a pena registrar aqui no blog... guardando memórias de mim!

maria,
entendo perfeitamente o q vc diz
às vezes a gente vai todo empolgado para um curso, vira um trauma
muita gente sai lesado da faculdade
acho que o meio academico reúne muita gente louca e insensível
tem professor e orientador que ao invés de mostrar que tcc não é bicho papão, que basta seguir um padrão e que aliás nem pode ser algo muito fora do padrão, só piora as coisas

uma vez fui para a faculdade num dia de prova para explicar para a professora que eu não estava em condições de fazer, porque meu marido que na época era só um ficante (mas lógico que eu disse que era meu namorado para mostrar 'mais seriedade da situação') tinha sofrido um acidente, tinha sido atropelado, e que passaria a manhã inteira fazendo uma cirurgia no cérebro.
ela disse que de maneira nenhuma dava prova substituta (tinha gente que tentava entrar em recurso contra ela mas nao adiantava nada) e que eu tinha que fazer a prova

tirei uma nota super baixa, né?

aí meus colegas de classe se condoeram com a situação e pediram que ela me desse uma oportunidade e ela então pediu uma monografia para a classe inteira
o pessoal super ficou me apoiando e talz
aí um amigo meu (ps: era uma matéria de francês, tinha que escrever tudo em francês) viu que eu estava passando muito mal naquela semana e se ofereceu para fazer o trabalho para mim
porque eu naquela condição não ia adiantar nada fazer o trabalho, ia ficar ruim mesmo
e ele maravilhoso amigo fez mesmo!!
uma monografia muito boa! bem diferente da dele para não dar na cara
PS: esse meu amigo era cdf e já tinha até morado na França

a professora me deu dois de nota, disse que o trabalho estava muito ruim e cheio de erros de gramática (eu tinha lido o trabalho e sabia que isso não era verdade)

reprovei!!! e por causa disso abandonei o curso. fiz outras graduações, mas não me formei em frances

uma colega nossa estava grávida, passando mal na prova, mas a prof não deixou ela sair. ela vomitava pela janela e continuava a fazer a prova

tem gente q é psicopata unsub entre nós!!

sexta-feira, abril 08, 2011

Um sonho a mais não faz mal

Aprender a se comunicar com as pessoas: às vezes algo que a gente precisa aprender a fazer. Hoje de manhã fui acordada por um torpedo (escandaloso por sinal) de uma amiga. Ela disse que estava passando mal, tremendo e chorando. Que se não sobrevivesse, ao menos seus amigos saberiam de seu amor por eles. Liguei para ela imediatamente. Ela estava no metrô, muito ansiosa sobre uma decisão que teria que tomar no dia de hoje. Primeiro eu fiquei mais calma de perceber que a urgência da mensagem não era tão grave, ninguém estava correndo risco de vida, minha amiga não ia morrer de verdade. Mas logo entendi que a situação era grave o suficiente. Podia morrer no seu coração uma parte de si mesma, a que ela temia perder, a que ela temia matar por conta de uma má decisão. Conversamos por alguns minutos, e a única coisa que fiz foi me manter na razão, coisa que ela não estava conseguindo por sua imersão emocional. Falei para ela que, qualquer que fosse a sua decisão, ninguém ia morrer, e que se por ventura o que ela escolhesse não desse certo, que também isso não tinha nenhuma importância, bastava recomeçar, bastava correr atrás de novo que outra oportunidade apareceria. Ninguém tem apenas uma única oportunidade na vida. Nada nos garante que um caminho ou outro é o 'certo'. Normalmente os dois são. Ou nenhum dos dois é. Não existe resposta 'certa' e a gente não tira zero na prova de acordo com a nossa resposta. A única coisa que muda é a trajetória, mas muito provavelmente o resultado não varia tanto. Acho que a gente passa tanto tempo na escola com medo da nota, com medo do ponto negativo, com medo de errar a resposta, que depois na vida temos a impressão de que tudo segue a mesma lógica, e que se errarmos tudo está perdido. Mas na maioria das vezes não há resposta correta. Não há uma só única coisa a fazer. Indo para cá ou indo para lá, cada percurso vai ter a sua beleza, o seu desafio, a sua característica, a sua estória. E ficamos assim tão ansiosos com medo de errar. O que foi tão legal dessa experiência foi o que ela me ensinou: a, no momento do sufoco, pedir ajuda aos amigos! Quantas vezes não sofremos sozinhos, muitas vezes fazendo tempestades em copos dágua, cuja angústia seria muito aliviada se tivéssemos esta coragem, a de pedir ajuda. Com sinceridade. Sem achar que estamos 'atrapalhando', sem achar que estamos sendo incovenientes, sem achar que não merecemos carinho e amizade das pessoas. Lógico que, como eu disse no post anterior (sim, coincidência de temáticas no blog), nem todos têm disponibilidade emocional, maturidade, paciência, inspiração, ou seja lá o que for para nos ajudar. Mas um amigo nem sempre precisa ter as 'respostas corretas' para nos dizer. Um amigo, falando que nos ama e que nos apoia, nos ajuda e muito. A presença do amigo, seja ao vivo, seja por telefone, seja por um torpedo no celular, seja um email ou por outro meio, nos fortalece. Precisamos engolir o orgulho e, nos momentos que precisamos, chamar os amigos. Gostaria de saber fazer isso com destreza e naturalidade. Ainda não sei, mas estou aprendendo! No fim, minha amiga mais tarde me avisou que tinha conseguido se decidir e me contou a sua decisão. Para mim não foi surpresa, ela já estava decidida no que fazer, mas estava tão insegura que não estava conseguindo assumir o seu desejo. Espero sinceramente que eu a tenha ajudado. E sei que, só pelo tanto que a gente se gosta e se demonstra nossos sentimentos, essa amizade já me vale muito a pena!!

quinta-feira, janeiro 06, 2011

Amigos para valer, você e eu!

Olha, se tem algo que eu aprendi em 2010 é diferenciar um pouco mais os amigos que honram o código de amizade e os que falham.
Não adianta de nada uma pessoa me abraçar, dizer que me ama, e pisar na bola comigo muitas e muitas vezes seguidas sem ser companheira de verdade!
É natural que algumas pessoas a gente ajude mais do que elas possam nos ajudar, e que outras ainda nos auxiliam muito mais do que poderíamos retribuir.
Também é bom pensar que nem sempre estamos disponíveis para doar algo de nós mesmos, há fase em que não se consegue ser apoio de ninguém. Há fases em que precisamos de muito apoio. Toda pessoa tem o direito de se recolher em algumas passagens difíceis da vida.
Mas um verdadeiro amigo, mesmo que não possa estar presente, ele no mínimo deseja o seu bem.
Há amigos verdadeiros que ficam inacessíveis por anos, mas quando te encontram sentem aquela emoção sincera e recíproca!
Um verdadeiro amigo pode até esquecer seu aniversário, não te dar presente de Natal, faltar na sua formatura, etc, mas está interessado na sua vida, nas tristezas, nas alegrias, no cotidiano e no extraordinário.
Um verdadeiro amigo, se percebe que pisou na bola, pede perdão de joelhos e se esforça para nunca mais cometer nenhum deslize com você (ainda cometendo, porque todos todos seres humanos falhos e vulneráveis ao erro).
Se uma pessoa só demonstra insatisfação, não te acrescenta energia, não compartilha, não tem interesse nas suas vitórias e decepções, se só pede de você incondicional amor e dedicação, mas não te demonstra estima, nem que seja virtualmente, talvez essa pessoa não seja tão sua amiga assim.
A fala confunde, porque dizer que ama é uma coisa forte. Dizer que você é uma parte importante de sua vida é intenso.
Todavia, há envolvimentos que trazem mais desgaste e melancolia que outra coisa.
Por um lado é bom ouvir palavras de afeto. Mas principalmente as ações devem dizer a mesma coisa. Talvez em alguns casos demore um pouco para a gente reconhecer quando as ações estão demonstrando muito mais o contrário que aquilo que a gente gostaria de acreditar que existe.

Por isso, que estas experiências possam me fortalecer, para que eu siga feliz e contente, ou sozinha, ou na companhia de pessoas que me façam sentir bem, não cedendo à carência que me encaminha a relacionamentos 'errados'.
Bom seria que todas as pessoas pudessem reconhecer o melhor de nós e oferecer o melhor.
Mas nem sempre é assim.

O que temos que defender sempre é a nossa PAZ!

terça-feira, outubro 26, 2010

Passarim quis pousar, não deu, voou...

Minha amiga Jéssica uma vez me perguntou a minha opinião sobre este poema de Manuel Bandeira, principalmente em relação ao último verso. Agora compartilho com todos aqui no blog o que respondi a ela!!

Manuel Banteira - Boda Espiritual

Tu não estas comigo em momentos escassos:
No pensamento meu, amor, tu vives nua
- Toda nua, pudica e bela, nos meus braços.

O teu ombro no meu, ávido, se insinua.
Pende a tua cabeça. Eu amacio-a... Afago-a...
Ah, como a minha mão treme... Como ela é tua...

Põe no teu rosto o gozo uma expressão de mágoa.
O teu corpo crispado alucina. De escorço
O vejo estremecer como uma sombra n'água.

Gemes quase a chorar. Suplicas com esforço.
E para amortecer teu ardente desejo
Estendo longamente a mão pelo teu dorso...

Tua boca sem voz implora em um arquejo.
Eu te estreito cada vez mais, e espio absorto
A maravilha astral dessa nudez sem pejo...

E te amo como se ama um passarinho morto.

Bom, primeiramente devemos lembrar que manuel bandeira é do Modernismo, e uma das características principais desta escola literária é o ESTRANHAMENTO.
Portanto, fazer cara de HÃ? COMO É QUE É? no final do poema é não só normal como até mesmo desejado pelos autores, que buscam através da surpresa provocar uma reação no leitor. Esse estranhamento provoca novas questões, novos questionamentos, desperta o espírito crítico, ou seja, é uma poesia elaborada para que o leitor não se acomode inativo no processo de ler e interpretar.
Não há portanto respostas prontas para a maior parte das perguntas que possamos fazer ao ler um poema como este, não dá para descobrir a real intenção, a real mensagem, porque a real expectativa do autor é que o leitor experimente as próprias impressões, as próprias conclusões.

Lembremos também que Manuel Bandeira explora o cotidiano, a simplicidade, para traduzir o comum em algo extraordinário.
Amar um pássaro morto pode nos trazer uma série de sensações.
Como esse pássaro morreu? Eu matei? Era um pássaro de estimação? O pássaro morreu de velho? O pássaro foi morto por um estilingue? Foi eletrecutado? Este pássaro era um pardal comum, um pássaro em extinção, era um símbolo de toda uma nação? Este pássaro era colorido, bonito, era um pássaro sujo, doente?
Reparem: a cada resposta que pensamos nestas hipotéticas perguntas sentimos algo diferente.
Portanto, posso amar um pássaro morto de várias maneiras, assim como posso amar uma pessoa de várias maneiras diferentes.
O amor por uma pessoa pode ser um alívio, pode ser uma dor, pode ser um arrependimento passageiro, pode me marcar para sempre.

Além do mais, lembremos que Manuel Bandeira era tuberculoso numa época em tuberculose era mortal. Ou seja, ele passou a vida toda esperando pela morte. Por isso, ele desmanchou um noivado, pensava que ia morrer logo e não ter a chance de ter uma vida ou um casamento normal. Só que não se sabe como ele viveu e muito. Mas ele não sabia que ia durar tanto tempo, até a velhice.
Esse pássaro morto pode estar representando ele mesmo, como se ele já estivesse morto apesar de vivo, ou seja, uma pessoa viva sem nenhuma chance de ter uma vida normal, uma pessoa que iria morrer a qualquer momento.

O que nos leva a pensar na fragilidade humana.
Somos tão frágeis quanto um pássaro.
Um pássaro morto e uma pessoa morta, qual a diferença? O homem pode se achar mais forte que um pássaro, mas não passa de um ser mortal e frágil tanto quanto.

Ou seja, Manuel Bandeira não nos diz se a amada está viva ou morta, talvez isso seja o que menos importa.
Manuel Bandeira quer que pensemos e reflitemos sobre as nossas sensações, sobre nossos sentimentos, sobre nossas impotências, sobre questões como a vida e a morte, sobre muitas outras coisas que podemos pensar a partir de seus versos e suas palavras.

Até o penúltimo verso, poderíamos até dizer que se trata de um poema do Romantismo, ou seja, de um poema que está explorando de uma maneira incrivelmente sensível o amor de uma pessoa pela outra.
Porém, o último verso muda tudo. Aumenta a perspectiva.
Bom, isso e muito mais posso falar deste poema, posso passar o dia todo e a noite inteira falando de Manuel Bandeira, sobre o romantismo e sobre o Modernimo.


Aproveito para postar também uma letra de música que admiro muitíssimo, apesar de ser muitíssimo triste, interpretada por Tom Jobim:

Passarim

Passarim quis pousar, não deu, voou
Porque o tiro partiu mas não pegou
Passarinho, me conta, então me diz:
Por que que eu também não fui feliz?
Me diz o que eu faço da paixão?
Que me devora o coração..
Que me devora o coração..
Que me maltrata o coração..
Que me maltrata o coração..

E o mato que é bom, o fogo queimou
Cadê o fogo? A água apagou
E cadê a água? O boi bebeu
Cadê o amor? O gato comeu
E a cinza se espalhou
E a chuva carregou
Cadê meu amor que o vento levou?
(Passarim quis pousar, não deu, voou)

Passarim quis pousar, não deu, voou
Porque o tiro feriu mas não matou
Passarinho, me conta, então me diz:
Por que que eu também não fui feliz?
Cadê meu amor, minha canção?
Que me alegrava o coração..
Que me alegrava o coração..
Que iluminava o coração..
Que iluminava a escuridão..

Cadê meu caminho? A água levou
Cadê meu rastro? A chuva apagou
E a minha casa? O rio carregou
E o meu amor me abandonou
Voou, voou, voou
Voou, voou, voou
E passou o tempo e o vento levou

Passarim quis pousar, não deu, voou
Porque o tiro feriu mas não matou
Passarinho, me conta então, me diz:
Por que que eu também não fui feliz?
Cadê meu amor, minha canção?
Que me alegrava o coração..
Que me alegrava o coração..
Que iluminava o coração..
Que iluminava a escuridão..
E a luz da manhã? O dia queimou
Cadê o dia? Envelheceu
E a tarde caiu e o sol morreu
E de repente escureceu
E a lua, então, brilhou
Depois sumiu no breu
E ficou tão frio que amanheceu
(Passarim quis pousar, não deu, voou)
Passarim quis pousar não deu
Voou, voou, voou, voou, voou

segunda-feira, março 15, 2010

Over the rainbow

To live with me
is to have something lost in the darkness

To stay with me
is to have something bizarre reflected in the eyes

To be next to me
is to have something close to the abyss

But be sure
that
is a place
warm and quiet and full of love

Be with me
Be me
And explore thee infinite silence of my soul

(meu primeiro poeminha em inglês hehehehe)

Tradução

Viver comigo
é ter algo perdido na escuridão

Ficar comigo
é ter algo bizarro refletido nos olhos

Estar próximo a mim
É ter algo perto do abismo

Mas esteja certo
de que
é um lugar
quente e quieto e pleno de amor

Esteja comigo
Seja eu
E explore o infinito silêncio de minha alma

quinta-feira, dezembro 10, 2009

Não provoque!... é cor-de-rosa choque!...

Quando se faz uma pergunta, de forma sincera, do fundo de nosso coração, ao universo, o universo responde.
Ontem eu perguntei a um homem se ele era todo rosa. Hoje ele apresentou uma página da internet que ele tinha colorido toda de rosa.
Hoje eu vi um personagem rosa, de roupa rosa, levar um tiro.
Ele saiu são e salvo, do jeito que eu sabia mesmo que aconteceria.
Um personagem corajoso e rosa.
Sabe que difícil não imaginar agora tudo rosa: olho para as paredes, elas estão rosa, a cortina, a sala, o céu, a rua, as árvores, tudo rosa.
Quando o sangue deste personagem escorreu no chão, parecia que estava escorrendo de minhas próprias mãos. Sangue rosa.
E eu me lembrei da minha própria lesão.
Lembrei-me de quando vi algo se esvair das minhas mãos e escorrer pelo chão.
Mas isso já foi há muito tempo.
Mal podia saber eu que o mundo viria a ser rosa.
Eu, rosa. Eu, Rosely, rosa por dentro e por fora: minha pele, meus cabelos, meus olhos, minhas lágrimas, minha saliva, meu sangue, meu pulsar, meu olhar, meu respirar, meu ser em mim e minha vida... rosa.
Nunca poderia imaginar que, depois de tudo, tudo seria assim. E é bom.
Mas chega a hora de eu fazer as pazes com o espírito do tigre, essa força visceral.
Essa força além de mim.
Mas não me sinto mais ameaçada, porque algo de mim me protege. Todo esse rosa que se expande, esse rosa que se alastra, esse rosa que pertence a mim, que me justifica cada segundo de minha existência.
Sim, talvez antes as coisas não fossem assim com esta cor tão suave.
Talvez as cores fossem fortes demais, intensas demais, gritantes demais. Talvez fosse até insuportável viver com tantas cores me ofuscando e piscando diante de mim.
Mas tudo, tudo o que o tigre podia tirar de mim, se foi. Olho para as minhas mãos agora e vejo que não estive tão vazia.
Olho para as minhas mãos agora e vejo e sei e tenho certeza de que o que se perdeu nunca foi perdido.
E por mais que eu quisesse perder, por mais que eu quisesse jogar do precipício, nunca foi separado de mim.
Oi, tigre, oi tigre escarlate, oi tigre vermelho.
Oi tigre que tem nas presas restos do que eu achei que fosse meu um dia.
Não precisa devolver nada, tudo o que se foi já era, faz tempo, muito tempo.
Então, universo, já que você provou que me escuta, porque me responde, escuta agora, universo, a minha voz!
A minha voz rosa que vibra mais que o tempo, mais que o fogo, mais que todas as partículas infindas que me rodam, que exalam de mim.
Escuta a minha voz e decifra meu pedido, decifra-me.
Porque tudo o que já foi, já era.
E tudo o que está agora, está tudo rosa. Rosa que nem eu, rosa que nem Rosely. Como sempre tinha que ser, como estava marcado para ser.
Eu sou, sempre serei. Estou aqui.
Perceba-me.

domingo, novembro 08, 2009

Tente de novo amanhã

a dor foi meu poço meu poço meu poço
se foi para mim a dor o poço o poço o poço
eu posso ah se posso eu posso
que seria eu sem dor?

...mas posso.

terça-feira, setembro 29, 2009

No more tiers

tem dias que o amor está de OLHEIRAS
tem dias que o amor tira zero na PROVA
porque amor não é bala de HORTELÃ
é de gengibre e fogo de RABO
amor que não arde não tem graça, mas que arda mais nas minhas fuças que nas partes ENFLAMADAS
ai amor que me enche toda de amor e assim toda enlameada eu posso ser AMADA
amor não é bala de HORTELÃ
é bala de FOGO
METEORO EM CHAMAS

(Agradecimento às minhas amigas Letícia e Guiga que me inspiraram este poema)

sexta-feira, setembro 04, 2009


Fragmentos de meu diário escrito entre maio e agosto de 1982!

“Passamos em uma loja de sapatos, e nossa mãe olhou para nós e disse para meu irmão:
__Não faça bagunça Roberto, e você Rosely hítem”. (20/05)

“(...) a professora deu uma matéria nova, a matéria até que é fácil” (20/05)

“Bem... são 8 e 10 e ainda não fiz a tarefa da lição de ca, posso te guardar agora? Está muito frio e não posso sair lá fora para te dizer como está a lua, posso agora te guardar? Obrigada, uma linda noite para você e tenha sonhos que chegou noite e você dormiu” (20/05)

“Hoje, amado diário, tive prova de português e não sei se fui muito bem, no gênero do substantivo só coloque epiceno e comum de dois. Esqueci totalmente do sobrecomum, por isso não poderei tirar AE” (21/05). Observação: AE = avanço excelente, correspondendo às notas 9 e 10.

“Já li muitos livros sobre ela, e de muitos outros personagens” (22/05). Observação: referia-me à ‘Alice no país das maravilhas’. Quando criança, freqüentava a biblioteca do bairro. No início, tirava 7 livros por semana, mas reclamava à bibliotecária que era pouco. Ao constatar que eu realmente sabia responder sobre todas as estórias que ela perguntava, passou a me emprestar 10 livros por semana. Eu me sentia muito especial por quebrar as regras.

“Oi, diário, como vai? Hoje assisti o holiday on ice, foi um festival em tanto! Foi uma maravilha! Gostaria que você estivesse lá, foi mesmo lindo! No almoço almoçamos comida italiana, uma gostosura! Hoje me diverti à bessa! Soltamos bombinhas e fogos! Que maravilha! Hoje parece que entrei no país da alegria! Pois até esqueci que a vida existia minha prima e minha tia chegaram, preciso atende-lás, porque minha prima adora olhar o que ganhei, se tem uma novidade, etc. Adora papel de carta e figurinha ‘Bem me quer’. Tchau diário, até amanhã” (23/05). Observação: minha professora leu este dia de meu diário para toda a sala escutar. Lembro-me muito bem disso: quando ela começou a ler, todos os meus amigos ficaram olhando para mim, sorrindo, surpreendidos a cada informação. A professora elogiou as minhas palavras e eu morri de vergonha! Mas gostei muito. Foi um dia em que fui o destaque da aula. Todas as crianças queriam falar comigo e me perguntaram mais sobre o Holiday on ice, um espetáculo de patinação no gelo que ocorria no parque do Ibirapuera.

“Oi, como vai? Agora vou contar o que fiz de hoje:
Levantei-me muito animada hoje, pôs ontem foi um sucesso! Só que hoje é hoje. Tomei o café e comi pão puro, mas o que estava gostoso mesmo é o pão.
Meu pai usa palmilhas nos sapatos. No almoço comi arroz com comida tineleza e molho de frango” (24/05). Observação: não me perguntei o que é comida tineleza que não sei! (risos)

“Estou fazendo a tarefa, e não posso ser pertubada, mas, meu irmão está querendo quebrar nozes, estou avisando para ele ir embora e ele não quer. Minha mãe está no telefone e vou avisá-la quando sair de lá” (26/05)

“Brincamos de duas brincadeiras: Queimada e outra brincadeira que não conheço o nome. Aqui tem um aquecedor para fazer um ar gostoso e quente” (26/05)

“Não fui na aula, e nem fiquei em casa. Ontem minha avó não estava passando bem, então minha mãe a levou para a médica.
Hoje minha mãe saiu e tive que ir junto (pois ela nunca me deixa sozinha e não deixa eu sair sozinha, nem com pessoas estranhas).
Quando chegamos em casa, já eram 1 e meia e tive que ficar em casa. Meu irmão (que também tinha ficado em casa) me chamou:
__ Rosely! Vem cá! Estou vendo um bem-te-vi!
Fui correndo e, quando cheguei ele estava gritando: Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi!...
Era lindo, mas depois de ter dado aqueles berros, voou para bem longe” (27/05)
Observação: lembro-me muito de como ficava chateada de não ter autonomia se queria ficar em casa ou sair. Eu ficava sabendo que ia sair em cima da hora (lógico, por que minha mãe me avisaria com antecedência? – risos) e isso me deixava irritada e triste. Em outras passagens de meu diário, reclamo que eu nunca podia ficar sozinha em casa.

“Hoje foi o aniversário de minha professora.
Não tivemos aula, e sim festa. Todos escreveram na losa: Feliz aniversário professora! Viva a professora Olga!...
Levaram discos, com músicas que a professora gostava. Teve um baile, cada menino com uma menina: o Paulo Rogério com a Úrsula, o Rafael com a Maridene,...
Eu dancei com o Eduardo. Só que muita gente acha que dançar é igual a namorar. Não é nada disso, pois namorar é igual a amar, gostar, etc para poder casar” (28/05)

“Meu irmão tem 5 anos, e eu 10. Ele está no pré e eu no 4º ano. Mas não é por isso que está quase do meu tamanho, daqui a pouco ele me passa.
Ele sempre fala:
__Daqui a pouco sou o primojemito!
Eu explico para ele:
__Roberto, você pode estar cataravô e mesmo assim será caçula” (28/05). Observação: eu me lembro que meu irmão ficava muito incomodado de ser chamado de caçula. Eu estava sempre tentando explicar para ele o que caçula significava, mas talvez não conseguisse ser clara na mensagem (risos). Eu era muito pequena mesmo, a menor da classe.

“Li o livro que peguei na classe. Tive sorte, além de ser pequeno (de poucas folhas) é um livro muito bom, ensina bastante coisas, explica muitas palavras e o nome do livro é ‘A porta da aventura’” (29/05)

“Minha mãe fala que eu tenho que cuidar de mim mesma, não perguntar o que ela estava falando no telefone, na rua, na escola, etc” (30/05)

“Ela vive falando que sou a responsável de minhas coisas. Não sei o que é responsável, por isso tenho que recortar e colar no vocabulário.
No recreio foi uma confusão, a nossa fila misturou com a do 1º ano.
A professora mandou um aviso que dizia assim: ‘Mandem olhar a cabeça porque já está tendo piolho de novo”.
Minha mãe já olhou a minha cabeça, e eu não tenho” (31/05)

“Hoje tive ponto negativo, por causa que não trouxe o livro. Aquele da ‘porta da aventura’, lembra-se?
Também não levei a ficha de leitura, a qual devia ser feita” (01/06)

“Mas a professora não deu só porque não formamos fila. Hoje também ia ter redação, e a tia não deu não sei porque.
No recreio lanchei sozinha. Só que fiquei imaginando, fazendo poesias líricas. Só que agora não lembro nenhuma” (03/06)

“Bem... De manhã tive uma surpresa: ganhei uma chinela nova. Minha mãe está fazendo uma legislação sobre nossa casa, anda com muita briga entre nós dois (Eu e meu irmão).
Quando fui para a aula, cortei o dedo e saiu pouquíssimo sangue. Pois não foi nada, não doeu e não chorei” (04/06)

“Minha mãe está reclamando que comemos todos os ‘Chambinhos’ que ela comprou!” (04/06)

“No ano passado, (depois da operação) tirei AS- em ciências e AI em Estudos Sociais. Ainda bem que era prova ‘semanal’. E semanal quer dizer da semana!” (05/06). Observação: quando tinha nove anos de idade, fui submetida a uma cirurgia de rim. Passei muito tempo longe da escola por causa de exames e pós-cirurgia. Quando voltei, fiquei com medo de repetir de ano, pois tinha perdido muitas aulas. Mas minha mãe estudou comigo e consegui recuperar. AS era “avanço suficiente” e AI “avanço insuficiente”.

“No almoço outra vez comi comida tinoleza com um pato frito” (06/06). Observação: de novo, não me perguntem o que é tinoleza que ainda não descobri!

“Minha mãe é uma pessoa delicada, analisa tudo, se faz ou não faz, sabe consolar, etc.
No ano passado, minha tia Nunciata, estava num hospital em Piraçununga, minha mãe trouxe ela para São Paulo, colocou no melhor hospital, ela que pagou, avisou ao Léu, meu tio médico, ele deu muitos médicos para salvá-la, ela avisou que ia ser operada e colocar uma sonda no nariz.
Mas, mesmo assim ela morreu” (06/06).

“Depois foi pro céu a tia Erta, que foi em abril. Coitada! Essa já foi sem enchergar” (06/06).

segunda-feira, agosto 31, 2009

Como pode o peixe vivo viver fora d'água fria...


São Paulo, 19 de maio de 1982
4a. série A
Quarta-feira

Diário:

Hoje vou lhe falar de tudo que fiz:
Levantei-me meio infeliz, lavei meu rosto com uma água bem gelada, tomei o café mas não comi muita coisa.
Fiz a lição mas mesmo assim não deu tempo. Minha professora me mandou um bilhete e quando cheguei em casa mostrei logo para a minha mãe, ela assinou e mandou também um bilhete dizendo que não havia mais plástico para encapar você e o vocabulário.
Hoje choveu bastante, não teve educação física e o recreio foi na classe. O céu está cheio de nuvens e não vejo a lua, pois agora são seis horas e dez minutos, minha mãe está fazendo o jantar, meu pai já chegou do trabalho e às 7 horas vai para a faculdade. Gostaria de ficar mais um pouco com você, mas tenho que fazer a tarefa. Até amanhã, diário pois quero vê-lo outra vez, espero que na mala não esteje muito frio e tenha uma linda noite com sonhos maravilhosos.

Este é a primeira página do diário que escrevi entre 19 de maio e 15 de agosto de 1982.
Não fiz nenhuma alteração.
Na capa, há uma figurinha de Sara Kane, cujo álbum não completei na infância. No ano passado, relançaram este álbum, com as mesmas gravuras que antigamente e desta vez refiz e consegui todas as figurinhas!
Ver este diário foi muito bom. Ri e chorei. Há coisas impressionantes, alegres e tristes. Muito verdadeiro. Depois farei uma seleção das melhores passagens para postar neste blog!

quarta-feira, agosto 19, 2009

Fantasmas no meu quarto

Ontem eu e o Márcio estivemos em uma aventura!
Ao deixar o carro em um estacionamento no último andar de um prédio, inadvertidamente entramos por uma porta com a intenção de encurtar caminho.
Mas ao invés de ingressarmos no prédio onde estávamos, encontramos um caminho para o prédio ao lado, que estava em construção.
Começamos a descer uma escada larga e tenebrosa!!
Passamos o segundo andar... porta lacrada!
Passamos o primeiro andar... porta lacrada!
Chegamos ao subsolo... quando abrimos a porta... cenário de escavação, com trator e tudo! Um enorme galpão cheio de entulhos e terra!
Assim que vi tudo isso, imediatamente comecei a correr escada acima, na esperança de poder sair pelo mesmo lugar que entramos!
Mas... quando chegamos lá em cima, vimos que as portas que tínhamos acabado de atravessar trancavam por fora!
Ou seja, estávamos presos no prédio vazio!!
Sem muito pensar, comecei a chutar a primeira porta e o Márcio começou a forçar.
Logo a porta ficou cheia de marcas do meu sapato.
O Márcio chegou a pensar que a gente não ia conseguir abrir a porta, mas insisti para que ele continuasse, dava-me a impressão de que ela estava quase quebrando.
E... deu certo! Após quebrar a primeira porta, fizemos o mesmo com a segunda e conseguimos escapar!
Foi bem rápido, não deu muito tempo para entrar em pânico, mas foi bem assustador!
Só depois que saí é que fiquei imaginando a gente passando a noite naquele prédio vazio, até chegar um pedreiro na manhã seguinte...
Já pensou?
Olha, NADA ROMÂNTICO, viu...

quinta-feira, agosto 06, 2009

Todo menino é um rei

Spencer Reid é um dos personagens principais da série Criminal Minds, agente especial da equipe de análise comportamental do FBI (Behaviral Analysis Unit -BAU).
Spencer Reid foi em princípio criado com a intenção de apresentar características de uma pessoa com “síndrome de Asperger”, pelo que eu entendi um tipo de autismo. Algumas dessas características permanecem, como alto QI, memória fotográfica e dificuldade de entrosamento social. Em algum episódio da primeira temporada, até se menciona a palavra “autista” como adjetivo de Reid. Na minha opinião, outros “sintomas” desta síndrome foram abandonados durante a série ou porque entravam em contradição com a profissão deste personagem ou por conta de atender expectativa de fãs mesmo (acho que o Reid ficou mais simpático do que o previsto). Mas não entendo quase nada sobre esses assuntos da área de psiquiatria, então não dá para levar o que penso muito a sério... um outro personagem que parece explorar as características desta síndrome de Asperger, de forma até caricatural, é o Sheldon, da série “The big bang theory”: inclui necessidade de rotina, comportamento repetitivo, egocentrismo, dificuldade de percepção dos sentimentos alheios, leitura da linguagem bem ao pé da letra (em conseqüência dificuldade de perceber ironia ou sarcasmo). Bom, para ser um “profiler”, é necessário perceber (e bem) o comportamento do outro, não é?
Se bem que às vezes em algum diálogo entre Reid e Prentiss, Reid leva bem ao pé da letra algumas metáforas ou expressões e a Prentiss fica meio sem saber como se explicar, ela acaba recorrendo ao “deixa para lá!” – por exemplo: Prentiss falou uma vez, voltando à BAU de uma missão: “Vocês não têm a impressão de que a volta é sempre mais rápida do que a ida?”, referindo-se à sensação de alívio ao voltar para casa. Inesperadamente, Reid responde: “Isso porque os ventos estavam a nosso favor”, referindo-se à diferença de velocidade do avião na viagem de retorno. Ou seja, ele entendeu a expressão bem ao pé da letra.
Além disso, Reid demonstra e expressa seus sentimentos em muitos momentos, até de forma intensa – diferente de Sheldon, por exemplo – e muitas vezes empatia. Ou seja, embora o Reid seja meio estranho, parece que um portador desta síndrome, pelo menos se manifestada de forma mais contundente, seria mais peculiar ainda.
Enfim, autista ou não, adorável!

O que eu acho de muito fascinante neste personagem é poder acompanhar um processo de amadurecimento no decorrer das temporadas. Na primeira temporada, ele era quase um garotinho, ainda mais que na sua história escolar não teve oportunidade de “crescer” com os meninos de sua idade por ter terminado a “hight school” (tipo ensino médio) com apenas 12 anos. Ou seja, ele continuou um garoto mesmo com 25.
Na primeira temporada, ele era muito mais delicado nos gestos, na voz, na postura... mas agora já maneja arma com segurança e sabe se posicionar nos momentos necessários. É lógico que ainda não é um homem maduro, mas foi o personagem que mais mudou no percurso de Criminal Minds. Acho que mudará bastante ainda, acho que isso vai ser bem legal. Quem sabe o Morgan pára de chamá-lo de “kid”, que acho isso muito chato.
Apesar de também o personagem sustentar alguma aparência de fragilidade, desenha-se nele uma incrível força: o fato de ter crescido com uma mãe esquizofrênica é de se levar em consideração. Sobrevive a tudo. E ainda vai levar um tiro na quinta temporada! Af, tomara que sobreviva de novo!! É muita coisa para um só personagem, mas ele é um agente de elite! É o Super Spencer Reid!!
Eu adoro o jeito que Matthew Gray Gubler dá vida ao personagem, só um cara doido e excêntrico como ele poderia reagir tão bem às aventuras do Spencer, mesmo que o personagem seja tão sério. O que sempre me chamou a atenção na sua atuação é a expressão vocal, que ficou cada vez melhor desde a primeira temporada. Ninguém mais tem a voz tão bem trabalhada e expressiva quanto Matthew, não me surpreende em nada que ele faça dublagem de animações. Neste sentido, admiro imensamente seu profissionalismo, tenho certeza de que ele faz milhares de exercícios vocais para chegar neste resultado (além de comer muitas maçãs rs).
Por coincidência, o primeiro episódio de Criminal Minds que assisti foi justamente o 214, quando Reid é raptado, então assisti o 215 na semana seguinte para ver a continuação. E sabe que nem ao menos o achei bonito?
Mas ao acompanhar a terceira temporada, virei superfã. Seu jeito de tagarelar, suas mãos longas e finas sempre se movimentando com agilidade, seu jeito por vezes desengonçado, suas gafes e incríveis resoluções... para mim é o herói perfeito! Somente a possibilidade de conseguir ler uma biblioteca inteira e não se esquecer de nada já me faz delirar. Eu cresci em uma biblioteca, mais amiga de livros do que de pessoas, almejando uma vida intelectual, e sempre me frustrou saber que eu nunca conseguiria ler todos os livros que eu quero ler assim como o fato de que eu esqueço um monte de coisas que eu li (droga!). Mas isso não acontece com o Super Spencer Reid!!
Ah, e tem ainda o tempero especial: ele é fã de Star Trek, de HQs, de ficção científica e um monte de outras coisas legais.
Bom, quero fazer também um texto sobre cada personagem de Criminal Minds, essa série é ótima!!